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    Vida iluminada

    Vida iluminada

    O sol não é seu inimigo. Ele é seu aliado para desfrutar de boa saúde e bem-estar físico e emocional. Apenas saiba usar esse remédio da natureza com sabedoria e moderação.

    Por Luiz Fernando Sella, Portal Revista Vida e Saúde


    A luz solar é essencial para a vida. Ela promove o crescimento das plantas, participa na produção do oxigênio na reação da fotossíntese, aquece o planeta, ilumina a vida, promove saúde e bem-estar.

    Além da sensação prazerosa de um relaxante banho de sol, acumulam-se a cada dia evidências científicas que apoiam os benefícios da luz solar para a saúde. Entretanto, a informação de que a exposição excessiva à radiação ultravioleta pode causar câncer de pele, aliada ao estilo de vida moderno que incentiva a permanência cada vez maior em ambientes fechados, levou muitas pessoas a se afastarem do sol e perderem seus benefícios. Portanto, encontrar o equilíbrio é fundamental para desfrutar dos benefícios da luz solar sem colocar a saúde em risco.

    Conselhos centenários

    Há mais de cem anos, os adventistas do sétimo dia acreditam na luz solar como um “remédio de Deus”. Nos conselhos inspirados da escritora Ellen G. White, encontramos que o sol “é um dos agentes mais curativos da natureza” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 527). Ela também escreveu que, “se as janelas fossem liberadas de persianas e cortinas pesadas, e o ar e o sol entrassem livremente nas salas escurecidas, seria vista uma mudança para melhor na saúde física e mental das crianças” (The Health Reformer, 1º de abril de 1871). Para quem estava doente, a orientação era “saiam para a luz e o calor do sol glorioso, vocês, pálidos e doentios, e compartilhem com a vegetação seu poder doador de vida e saúde” (The Health Reformer, 1º de maio de 1871). Hoje, mais de um século depois, essas declarações sobre os benefícios da luz solar são apoiadas por inúmeras publicações científicas.

    Liberação de hormônios

    Em primeiro lugar, acredita-se que a exposição à luz solar aumente a liberação pelo cérebro de um hormônio chamado serotonina. A serotonina está associada à melhora do humor e ajuda a pessoa a se sentir calma e concentrada. À noite, após o pôr do sol, a redução na luminosidade é percebida pelos olhos, que então ativam a glândula pineal, localizada na parte central do cérebro, para converter a serotonina em outro hormônio chamado melatonina. Além de possuir efeito antioxidante, anti-inflamatório e anticâncer, a melatonina é responsável por ajustar o relógio biológico e ajudar você a dormir. Sem exposição suficiente ao sol, seus níveis de serotonina podem cair. Baixos níveis de serotonina estão associados a um maior risco de depressão com padrão sazonal (anteriormente conhecido como transtorno afetivo sazonal). Essa é uma forma de depressão desencadeada pela mudança das estações, sendo mais comum nos meses pouco ensolarados do ano.

    Regulação do relógio biológico

    A luz solar desempenha um papel fundamental na regulação de nosso relógio interno. Esse relógio, também conhecido como ritmo circadiano, dita nosso comportamento com base na hora do dia – como quando adormecer, acordar ou comer. A luz parece ser uma das principais forças motrizes por trás desse relógio.

    O ritmo circadiano de uma pessoa precisa ser ajustado todos os dias para ficar sincronizado com as mudanças na luz. A exposição regular à luz solar treina o cérebro para perceber a diferença entre o dia e a noite. Com isso, o cérebro tem mais facilidade para dormir quando escurece e, como resultado, pode ajudá-lo a ter uma noite de sono melhor.

    Melhora dos níveis de energia

    A exposição solar estimula o cérebro a ficar em modo alerta e acordado. Durante os meses ensolarados do ano, nossos níveis de energia aumentam devido à estimulação cerebral ocasionada pela luz solar.

    Regulação da pressão arterial

    Acredita-se que a exposição da pele ao sol ative a liberação de uma substância chamada óxido nítrico dentro das artérias. O óxido nítrico é um conhecido vasodilatador dos vasos sanguíneos. Essa liberação estimulada pelo sol pode ajudar a reduzir a pressão arterial. Isso pode ser particularmente importante para pessoas com pressão arterial mais elevada. Um melhor controle da pressão arterial está relacionado à redução nos riscos de desenvolver doenças cardiovasculares.

    Benefícios metabólicos

    Estudos preliminares em ratos mostraram que a exposição solar pode ter efeitos benéficos ao metabolismo. Acredita-se que os raios ultravioleta do sol, em determinado comprimento de onda, consigam penetrar na pele em níveis mais profundos e exercer um efeito regulador no tecido adiposo, aumentando a lipólise, ou seja, a quebra de moléculas de gordura. Esse efeito estaria ligado à melhor saúde e, possivelmente, ajudaria na prevenção da síndrome metabólica (https://doi.org/10.1016/j.celrep.2019.12.043).

    Ajuda para transtornos mentais

    Devido à conexão entre humor e luz solar, a exposição solar é indicada para pacientes com transtornos mentais. Além disso, um dos principais tratamentos para a depressão com padrão sazonal é a fototerapia. Nos lugares em que é menor a incidência dos raios solares, como nos países nórdicos, a exposição luminosa pode ser obtida por meio de uma caixa de fototerapia, que emite uma luz terapêutica semelhante à luz solar natural.

    Aumento da expectativa de vida

    Há estudos que sugerem que a exposição solar pode ter efeito promotor da longevidade, devido a níveis melhores de vitamina D no sangue. Um estudo com 30 mil mulheres na Suécia, acompanhadas por 20 anos, indicou que aquelas que tinham maior exposição solar viviam em média dois anos a mais, quando comparadas com aquelas que tomavam pouco sol.

    Saúde ocular

    Uma pesquisa sugere que crianças que passam mais tempo sob a luz do sol podem ter menos probabilidade de se tornarem míopes. O estudo, publicado na revista American Academy of Ophthalmology, descobriu que para cada hora que crianças e jovens de até 20 anos passam ao ar livre, as chances de desenvolver miopia caem 2%. Para o Dr. Christopher Starr, médico oftalmologista da Escola de Medicina da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, as crianças devem passar de uma a três horas adicionais por dia ao ar livre, para estimular a produção de dopamina. A falta de dopamina causa alongamento do olho, resultando em miopia. No entanto, a exposição à luz solar não parece reverter a doença em crianças que já são míopes.

    Prevenção do câncer

    De acordo com inúmeros estudos, aqueles que vivem em áreas com menos horas de luz do dia são mais propensos a ter alguns tipos de câncer específicos do que aqueles que vivem onde há mais sol durante o dia. Estão incluídos: câncer de cólon, ovário, pâncreas, próstata e linfoma de Hodgkin.

    Doenças de pele

    De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição ao sol também pode ajudar a tratar várias doenças de pele. Os médicos recomendam a exposição à radiação ultravioleta para tratar doenças como psoríase, eczema, icterícia neonatal e acne. Embora a terapia com luz não seja indicada para todas as afecções cutâneas, um dermatologista pode recomendar tratamentos com luz solar se eles beneficiarem sua pele de forma específica.

    Doenças inflamatórias e autoimunes

    A exposição solar também parece exercer papel modulador no sistema imunológico, sendo investigada hoje como potencial tratamento para doenças inflamatórias e autoimunes, como, por exemplo, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, doença inflamatória intestinal e tireoidites. No entanto, mais estudos precisam ser conduzidos antes que os pesquisadores possam concluir que a luz solar pode ser um tratamento para essas e outras condições.

    Ideias para viver ao ar livre

    Prepare um piquenique

    Fazer piquenique ao ar livre pode ser uma ótima maneira de aumentar sua exposição ao sol e os níveis de vitamina D. Embale todos os seus alimentos saudáveis preferidos, convide alguns amigos e familiares, escolha um local agradável e desfrute dos momentos ao ar livre.

    Faça exercícios ao ar livre

    Você pode começar com uma simples caminhada, mas também pode explorar trilhas e passeios de bicicleta.

    Liberte seu espírito criativo

    Fotografar a natureza e observar pássaros (birdwatching) são hobbies saudáveis que possibilitam passar mais tempo na natureza. Apenas lembre-se de compartilhar suas belas fotos nas redes sociais.

    Redução do estresse

    Além do seu efeito antioxidante e estimulador do sono, o hormônio melatonina também exerce um papel no gerenciamento do estresse. Expor-se ao sol adequadamente durante o dia ajuda a produzir níveis maiores de melatonina durante o sono, o que pode ajudar a reduzir os níveis do hormônio cortisol, relacionado ao estresse. Além disso, a redução do estresse pode ser ainda maior se a exposição solar diurna for realizada em meio à natureza, como durante uma caminhada no parque ou na praia.

    Vitamina D

    Além de todos os benefícios citados acima, a exposição solar estimula a produção da vitamina D no corpo, que, por sua vez, tem efeito benéfico em todas as células. A vitamina D é completamente diferente da maioria das outras vitaminas. Apesar de ser chamada de “vitamina”, ela é, na verdade, um hormônio esteroide produzido a partir do colesterol, quando a pele é exposta ao sol. Por esse motivo, a vitamina D é frequentemente chamada de “vitamina do sol”. Após expor a pele ao sol, moléculas de colesterol são convertidas em colecalciferol, molécula precursora da vitamina D, que ainda precisa passar por duas etapas de conversão para se tornar ativa.

    Primeiro, o colecalciferol é convertido em calcidiol no fígado. Em segundo lugar, ele é convertido em calcitriol, principalmente nos rins. Essa é a forma ativa da vitamina D, que interage com receptores de vitamina D encontrados em quase todas as células do corpo. Quando a forma ativa da vitamina D se liga a esse receptor, ela ativa ou desativa genes, levando a mudanças em suas células.

    Deficiência de Vitamina D

    A deficiência de vitamina D é hoje uma das deficiências nutricionais mais comuns no mundo. Embora qualquer pessoa possa desenvolver essa deficiência, alguns fatores de risco podem aumentar a chance da falta de vitamina D:

    • Ter pele escura: pessoas com pele escura produzem menor quantidade de vitamina D quando se expõem ao sol;
    • Idade avançada: a capacidade da pele de produzir vitamina D após a exposição solar diminui com a idade. Aos 70 anos, a produção de vitamina D pode chegar a ser 75% menor;
    • Viver longe da linha do Equador nas áreas em que há pouco sol o ano todo. Quanto mais longe se estiver da linha do Equador, menor é a força da luz solar, especialmente nos meses frios do ano. Pessoas que vivem nos extremos norte ou sul têm maior risco de deficiência de vitamina D;
    • Passar muito tempo em ambientes fechados, com reduzida exposição solar;
    • Uso de protetor solar: protetores solares com fator de proteção solar (FPS) maior que 15 bloqueiam até 99% a síntese de vitamina D após a exposição solar;
    • Portadores de doença renal crônica ou doença hepática;
    • Portadores de doenças intestinais que afetam a absorção da vitamina D proveniente da dieta, como doença celíaca, doenças inflamatórias intestinais e cirurgia bariátrica.

    Sintomas de deficiência de vitamina D

    No geral, a deficiência de vitamina D é uma epidemia silenciosa. Os sintomas geralmente são sutis e podem levar anos ou décadas para aparecer. A maioria das pessoas não percebe que são deficientes.

    O sintoma mais conhecido da deficiência de vitamina D é o raquitismo, doença óssea comum em crianças nos países em desenvolvimento. O raquitismo foi eliminado principalmente dos países ocidentais por causa da fortificação de alguns alimentos com vitamina D.

    A deficiência também está ligada à osteoporose, redução da densidade mineral e aumento do risco de quedas e fraturas em idosos. Além disso, estudos indicam que pessoas com baixos níveis de vitamina D têm risco muito maior de doenças cardíacas, diabetes (tipos 1 e 2), câncer, demência e doenças autoimunes como esclerose múltipla. Finalmente, a deficiência de vitamina D está associada a uma expectativa de vida reduzida.

    Para concluir, lembre-se de que o sol não é seu inimigo. Ele é seu aliado para desfrutar de boa saúde e bem-estar físico e emocional. Apenas saiba usar esse remédio da natureza com sabedoria e moderação.


    LUIZ FERNANDO SELLA é médico e mestre em medicina e estilo de vida

    Matéria original: https://www.revistavidaesaude.com.br/destaque/vida-iluminada/

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