• 30 JUL 19
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    Ócio sem culpa

    Ócio sem culpa

    As pessoas vivem fazendo mil coisas e não sabem lidar com as horas vagas

    Por: Talita Castelão, Revista Adventista

    O que está acontecendo com as pessoas? Por que “fazer nada” causa tanto mal-estar em nossos dias? Todo mundo já ouviu dizeres populares como “Tempo é dinheiro”, “Deus ajuda quem cedo madruga” e “Mente vazia é oficina do diabo”. Fazer, fazer, fazer! Corremos tanto para lá e para cá, envolvidos em tantas coisas, que desaprendemos o básico: fazer nada. Pode parecer irônico, mas fazer nada hoje em dia é uma verdadeira arte. Não estou falando de preguiça, e sim de se permitir desligar e repousar. Acredite, quem consegue “fazer nada” de vez em quando tem mais saúde mental.

    Conheço gente que se sente culpada quando não está fazendo nada. E isso faz todo sentido em nosso tempo. Vivemos numa época sem habilidade para lidar com o ócio, o vazio, a falta. Não aguentamos a angústia da ausência das pessoas e coisas, da não satisfação constante, do tédio, do buraco profundo da alma que precisa ser “tampado” custe o que custar. Ao mesmo tempo, negamos qualquer conceito que aponte para um absoluto e abraçamos a relatividade, volatilidade e descartabilidade contemporâneas. Se por um lado há ganhos, sem dúvida também temos perdas.

    Quando você não se permite parar e vive sobrecarregado de afazeres, aumenta não apenas o cansaço, mas também o estresse e a ansiedade. Com o tempo, pode ter sintomas físicos e emocionais como irritação, tonturas, gastrite, ganho de peso, falha de memória, insônia e falta de libido. De acordo com a International Stress Management Association (ISMA-BR), 70% dos brasileiros economicamente ativos sofrem com estresse. A sensação de sempre estar devendo algo pode levar nosso corpo e mente a um colapso.

    A psicóloga Angélica Neris, especializada no bem-estar emocional, explica que um estilo de vida cheio de excessos não é sinônimo de qualidade de vida, mas sim o indício de que uma bomba-relógio pode explodir a qualquer momento. Se não considerarmos essa realidade, poderemos ser surpreendidos por uma doença que nos obrigue a desacelerar.

    Férias são muito bem-vindas para uma pausa na rotina. Mesmo assim, há pessoas que conseguem encher esse período de atividades a ponto de não relaxar. Se resolvem viajar, por exemplo, passam o dia correndo para visitar todos os lugares possíveis, sem se permitirem usufruir verdadeiramente do lugar.

    Contudo, não é preciso esperar as férias para ter algum descanso. Desacelerar deve ser um treino diário para quem quer ter qualidade de vida, e não apenas nas férias. A melhor dica é perceber o próprio corpo e a mente, dando-lhes o que for necessário, sem culpa. Se a gente acostumar a fazer uma coisa de cada vez, não vai cometer excessos. E, se a ordem for fazer nada, que seja!

    TALITA CASTELÃO é psicóloga clínica, sexóloga e doutora em Ciências

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